8. ARTES E ESPETCULOS 22.8.12

1. CULTURA  A CARA DO BRASIL REAL
2. LIVROS  UMA QUEDA PARA O ALTO
3. CINEMA  O QUE VALE  A INTENO
4. CINEMA  FOGO DE OUTONO
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  CHACINA OLMPICA

1. CULTURA  A CARA DO BRASIL REAL
Nelson Rodrigues inventou o teatro brasileiro. Retratou a nova classe mdia antes at de ela existir oficialmente e criou tipos que continuaro por a. Eternamente moderno, ser lembrado por muitos sculos.
AUGUSTO NUNES

     O dramaturgo Nelson Rodrigues inventou o teatro brasileiro em 1943, com a pea Vestido de Noiva. O romancista, com o pseudnimo Suzana Flag ou sem camuflagens, devassou e simultaneamente seduziu o universo habitado por aquela que muitos anos depois seria batizada de nova classe mdia. O cronista do Brasil real  enquanto colecionava achados metafricos que o transformariam num frasista incomparvel e concebia imagens magnificamente exatas  pariu criaturas que, conjugadas, mostram no o que os nativos da terra gostariam de ser, mas o que efetivamente so. O torcedor apaixonado do Fluminense descobriu que a mais srdida pelada  de uma complexidade shakespeariana e foi o primeiro a coroar Pel. Ele foi e fez tudo isso e muito mais em apenas 68 anos de vida.  compreensvel que o dia da morte fsica de Nelson Rodrigues tenha sido tambm o primeiro dia do resto de sua eternidade.
     A imortalidade de Nelson Falco Rodrigues, nascido no Recife em 23 de agosto de 1912,  reafirmada pelo centenrio do gnio. Diferentemente das efemrides do gnero, desta vez no foi preciso reapresentar o pas a outra vtima da amnsia endmica que chegou com as primeiras caravelas. Desde a dcada de 70, quando comeou a transformar-se numa prova contundente de que nem toda unanimidade  burra, Nelson est livre da temporada no limbo a que so condenados os grandes mortos. De l para c, no se passou um s dia sem que estivessem em cartaz peas teatrais ou filmes baseados em sua obra, ou sem que fossem vendidos exemplares dos livros que continuaram a multiplicar-se em edies sucessivas. Tambm  certo que neste momento, em alguma esquina ou mesa de botequim, algum est animando a roda de conversa com a evocao de uma frase ou criatura de Nelson Rodrigues. Ou apenas Nelson, porque basta o prenome para a identificao de um velho conhecido.
     A admirao por Nelson hoje  compartilhada por todos os brasileiros com mais de dez neurnios  sejam quais forem a idade, a filiao poltica, a tendncia ideolgica, o signo, o peso e a estatura. E assim sempre ser, porque os muitos grandes momentos de Nelson Rodrigues nunca ficaro grisalhos. A crtica de teatro Barbara Heliodora prev que, como ocorre com a obra de William Shakespeare, pelo menos quatro peas de Nelson  Vestido de Noiva, Boca de Ouro, A Falecida e O Beijo no Asfalto  continuaro encantando plateias daqui a 500 anos. Os descendentes dos nossos tetranetos reconhecero uma similar de Engraadinha na garota ao lado, ou dormiro imaginando que espcie de veculo estar transportando Solange, a dama que, no Brasil do sculo XX, caava aventuras no lotao.
     Ele ser sempre um grande autor afirma Barbara Heliodora, que atribui a Nelson Rodrigues a subida aos palcos dos dilogos que reproduzem a lngua falada pelas plateias. Nelson era um reprter extraordinrio, e foi muito influenciado pela experincia como jornalista, diz. Tinha um ouvido to maravilhoso que conseguiu captar o brasileiro falando. Ns aprendamos na escola que poderamos falar errado, mas deveramos escrever corretamente. Os autores escreviam certo, esquecidos de que aquilo era para ser falado. S depois de Vestido de Noiva os atores comearam a falar o portugus das ruas. A descoberta do dilogo em brasileiro fez de Nelson Rodrigues, segundo o crtico Sbato Magaldi, um autor seminal, que fecundou a nossa dramaturgia.
     Se Barbara Heliodora consegue distinguir o jornalista do dramaturgo, os amigos do singularssimo pernambucano criado no Rio de Janeiro sempre enxergaram um Nelson s, que parecia vrios por ser, na definio do jornalista e escritor Otto Lara Resende, um feixe de paradoxos.  um profundo individualista e vive da emoo coletiva, disse Otto. Foi um conservador e tem uma obra revolucionria. Orgulha-se de ser um reacionrio e foi um dos autores mais censurados do Brasil. O psicanalista e escritor Hlio Pellegrino achava que todas as verses do amigo viviam sob o imprio da fantasia, em que realidade e inveno sempre se misturam. Se a opo se impunha, a realidade sofria outra derrota: Nelson  fiel  sua imaginao
     Nelson Rodrigues era perigosamente imaginoso tanto com desafetos quanto com os mais ntimos amigos. Um deles s descobriu que fora transformado no nome alternativo da pea que entraria em cartaz naquela noite ao ler o enorme letreiro em neon: Bonitinha mas Ordinria ou Otto Lara Resende. A brincadeira que ultrapassara os limites do sarcasmo suspendeu por algumas semanas as conversas dirias entre o autor da homenagem e o integrante do grupo que reunia o que a usina de superlativos qualificava de amigos alm da vida e alm da morte. Anistias concedidas por Nelson Rodrigues eram amplas e irrestritas, mas tinham prazo de validade. Consertado o estrago, o parceiro ofendido no demorava a pousar em alguma histria contada por quem sempre desprezou a fronteira que separa o real do imaginado.
     A crnica policial piorou porque os reprteres de hoje no mentem, lastimava o homem que ainda menino enfeitava com detalhes fantasiosos histrias de casais que se matavam por amor. Nas crnicas ou nos romances de Nelson, o verdadeiro tirava o irreal para danar o tempo todo. Com um sotaque lisboeta que nunca existiu, Otto Lara Resende era repatriado de Portugal para contracenar com a cabra vadia, nica espectadora de entrevistas imaginrias conduzidas em um suposto terreno baldio  ou, ainda, para testemunhar mais um assombro provocado pelo Sobrenatural de Almeida, que alterava bruscamente uma situao ou o resultado de um jogo do Botafogo. Passados mais de trinta anos, est claro que histrias e personagens jamais ficaro datados. As criaturas que se tornaram inverossmeis num Brasil menos primitivo viraram documentos de poca.
     Tem lugar assegurado no Museu Nacional do Maniquesmo, por exemplo, o padre de passeata, religioso que comparecia em trajes civis s manifestaes de rua contra a ditadura militar. Estar ao lado de sua verso feminina, a freira de minissaia, e a poucos metros da estudante de psicologia da PUC, que queria saber o que o cronista achava da morte de Deus, e da estagiria de calcanhar sujo, que se formara em jornalismo para esbanjar autossuficincia e mau humor nas redaes. Todos nascidos em 1968, so filhotes do direitista atormentado pelas atividades clandestinas do primognito, engajado na luta armada. Em alguns episdios, Nelson foi longe demais na louvao de uma ditadura que torturava e matava inimigos. Mas o conjunto da obra  to luminoso que revoga as manchas escuras.
     Outras invenes do ficcionista delirante so atemporais e continuaro por a durante sculos. O idiota da objetividade, por exemplo. A vizinha gorda e patusca. Palhares, to definitivamente canalha que, na casa do irmo, beija  fora o pescoo da cunhada que passa pelo corredor. Esses seguiro contracenando com personagens que iluminam a face do Brasil que tenta, inutilmente, esconder as taras, as vergonhas familiares, a guerra conjugal, o adultrio, os preconceitos, a sexualidade reprimida, a mesquinhez patolgica. Se todo mundo conhecesse a vida ntima de todo mundo, ningum cumprimentaria ningum, resumiu Nelson Rodrigues.
     Os habitantes desse universo fantstico tm o olho rtilo e o lbio trmulo, reagem  adversidade com arrancos de cachorro atropelado, seu pensamento  to raso que uma formiguinha poderia atravess-lo com gua pelas canelas. Gr-finas com narinas de cadver suportam maridos com trs papadas e trs bochechas em cada lado do rosto. A cabea dos intelectuais tem a aridez de trs desertos, os especialmente infelizes se sentam no meio-fio para chorar lgrimas de esguicho, caem tempestades de quinto ato do Rigoletto, h homens bonitos como havaiano de cinema, faz um calor de rachar catedrais e existe gente varada de luz como santo de vitral. Um mundo assim, espalhado por dezessete peas, nove romances, sete livros de contos e crnicas e milhares de artigos em jornais, merece mais que uma nica vez sobre a face da Terra. O mundo maravilhoso que Nelson Rodrigues criou merece existir para sempre.
     Obsessivo confesso e sem cura, obcecado especialmente pela morte, Nelson jurava que, durante a infncia, fugia da escola para assistir a velrios. Aos 13 anos, estreou como reprter de polcia no jornal do pai, cobrindo um caso de suicdio passional. Adolescente, ouviu o som do tiro de revlver disparado por uma mulher que, inconformada com o noticirio que lhe devassara a vida ntima, resolveu vingar-se com o assassinato do dono do jornal, Mrio Rodrigues, ou de algum de seus filhos. A morte do irmo, o ilustrador Roberto Rodrigues, seguiu-se a do pai. Depois vieram os anos de pobreza, a tuberculose que lhe imps duas internaes em Campos do Jordo, as chuvas do trgico vero carioca de 1966 que mataram o irmo Paulo e toda a famlia, o fim angustiante do primeiro casamento, as turbulncias do segundo, o nascimento da filha cega, as torturas infligidas ao seu filho Nelsinho no crcere. Em 21 de dezembro de 1980, o homem que passou a vida inteira pensando na morte se foi. Nunca se saber se j tinha descoberto que era imortal.

O PROVOCADOR VOCACIONAL
A companhia de um paulista  a pior forma de solido
S os profetas enxergam o bvio
Toda humanidade  burra. Quem pensa com a unanimidade no precisa pensar
Hoje  muito difcil ser canalha. Todas as presses trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo
Toda mulher bonita  um pouco a namorada lsbica de si mesma
Nada nos humilha mais do que a coragem alheia 
Eu me nego a acreditar que um poltico, mesmo o mais doce poltico, tenha senso moral
O que atrapalha o brasileiro  o prprio brasileiro. Que Brasil formidvel seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro
Acho a liberdade mais importante que o po
No Brasil, quem no  canalha na vspera  canalha no dia seguinte
A fome  mansa e casta. Quem no come no ama, nem odeia
No reparem que eu misture os tratamentos de tu e voc. No acredito em brasileiro sem erro de concordncia
No h ningum mais vago, mais irrelevante, mais contnuo do que o ex-ministro
Jovens: envelheam rapidamente! 
Falta ao virtuoso a ferica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista

APAIXONADO CNICO
Amar  ser fiel a quem nos trai
Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que  amar
Ou a mulher  fria ou morde. Sem dentada no h amor possvel
tarado  toda pessoa normal pega em flagrante
Todo tmido  candidato a um crime sexual

Fotos:
O VELHO CONHECIDO - Nelson Rodrigues (1912-1980) no trao do carioca Cssio Loredano: desmentindo seu prprio ditado, de que toda unanimidade  burra, o jornalista e dramaturgo  das raras figuras a escapar da amnsia endmica entre os brasileiros.
IMPRIO DA FANTASIA - O pernambucano Nelson em seu habitat, as ruas do Rio de Janeiro, nos anos 70, e, acima, contracenando com a atriz La Garcia na pea Perdoa-me por Me Trares, de sua autoria: um autor fiel apenas  prpria imaginao e sem grande apreo pela fronteira que separa o real do inventado.
REPRTER SEM FOLGA NEM PAUSA - Nelson diverte crianas de colgio com uma encarnao da cabra vadia, personagem que testemunhava entrevistas imaginrias que ele conduzia num terreno baldio: o olhar do jornalista alimentava o talento do escritor.


2. LIVROS  UMA QUEDA PARA O ALTO
O novo livro de Diogo Mainardi  uma comovente narrativa sobre seu filho que nasceu com paralisia cerebral e uma portentosa representao intelectual das emoes.
MARIO SABINO

     Um dos desenhos mais clebres do mundo faz parte do acervo da Accademia de Veneza. Trata-se do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, em que a nica figura humana  retratada em duas posies, como se houvesse fotogramas sobrepostos  dentro de um crculo (com os braos esticados na altura da cabea e as pernas afastadas) e dentro de um quadrado (com os braos abertos na altura dos ombros e as pernas juntas), crculo e quadrado porque ti- dos como as formas geomtricas perfeitas. O Homem Vitruviano parece fazer um polichinelo, aquele exerccio fsico banido da ginstica escolar depois de arrebentar os joelhos das geraes com mais de 40 anos. Da Vinci concebeu o desenho em torno de 1490, a partir das consideraes do arquiteto romano Vitrvio. Um milnio e meio antes, em seu tratado De Architectura, Vitrvio estabelecera quais seriam as propores exatas do corpo humano, por meio de uma srie de correspondncias matemticas entre as suas diversas partes. O desenho de Da Vinci  acompanhado, na parte superior e inferior, de explicaes sobre tais correspondncias, a demonstrar com mais nfase a inteno do artista de apresentar o modelo de harmonia que deveria servir de base a pintores, escultores e arquitetos. O Homem Vitruviano  raramente exposto. A ltima vez foi em 2009. J sua anttese est em exposio permanente pelas vias e pontes de Veneza: Tito Mainardi, hoje com quase 12 anos, primognito de Diogo Mainardi. Portador de paralisia cerebral,  como uma espcie de Menino Antivitruviano que ele protagoniza A Queda  As Memrias de um Pai em 424 Passos (Record: 152 pginas; 29,90 reais), de autoria do ex-colunista de VEJA. O livro, que chega s livrarias com uma tiragem inicial de 20.000 exemplares,  comovente pelo tema, extraordinrio na forma e esplndido como reflexo sobre a arrogncia humana.
     Tito  personagem conhecido dos leitores que acompanhavam semanalmente a coluna de Diogo, a mais lida da revista de 1999 a 2010, quando o escritor e jornalista resolveu encerrar espontaneamente a sua colaborao. Ele comeou a pensar em escrever o livro sobre a paralisia cerebral de seu primognito em 2008, ainda no Rio de Janeiro, para onde se mudara quatro anos antes, a conselho de mdicos americanos. O veneziano Tito deveria viver num ambiente quente, onde pudesse exercitar mais as pernas. As areias de Ipanema foram seu primeiro  e ideal para quedas  campo de provas, complementadas pelas garagens trreas dos prdios da orla, nas quais o menino se esbaldava com seu andador, observado do carrinho por Nico, seu irmo carioca, hoje com 7 anos. Depois que Tito, em frias na cidade natal, alcanou 359 passos sozinho, Diogo decidiu concretizar seu projeto. Diz ele: S consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar  coluna em VEJA, por causa da minha cabea limitada: sou incapaz de pensar num Jos Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O Jos Dirceu emporcalha o Tintoretto. Uma das glrias de Veneza, o pintor  um dos artistas abordados por Diogo em A Queda.
     A paralisia cerebral de Tito foi causada por uma obstetra que apressou o parto de maneira desastrada. O dia em que ele veio  luz  30 de setembro de 2000  caiu num sbado, e a mdica encarregada do procedimento queria terminar seu turno de trabalho mais rpido. Para tanto, decidiu estourar a bolsa com lquido amnitico que protege o beb. S que, ao faz-lo contrariando todos os manuais de obstetrcia, Tito teve o cordo umbilical esmagado e ficou sem oxignio. A sada, nesse caso, era realizar uma cesrea de urgncia. A obstetra outra vez errou ao demorar demais para abrir o ventre de Anna, mulher de Diogo, e Tito permaneceu asfixiado por 45 minutos. O resultado foi uma leso no crebro que o impede de falar, andar e pegar objetos com as mos como se faz normalmente. A leso  to pequena que  invisvel aos exames de imagem mais modernos. Assim, no comprometeu a capacidade intelectual de Tito, um menino vivaz, bem-humorado e, agora, um pr-adolescente tpico  com disposio infinita para irritar os pais e uma precoce admirao por mulheres altas e esguias.
     Outros autores j trataram das deficincias de seus filhos, em livros corajosos como requer a honesta literatura do tipo confessional. Mas Diogo o faz sem resvalar na autocomplacncia e tambm evita circunvolues biogrficas que se afastam longamente do tema central. A Queda  tambm original na forma. Apresenta o exato nmero de captulos de seu subttulo: 424. Todos eles curtssimos, alguns com menos de quatro linhas. O nmero de captulos espelha o mximo de passos que Tito conseguiu dar sem cair, e sem andador, no momento em que Diogo finalmente deixou de cont-los  faanha realizada no dia em que o menino foi visitar pela primeira vez o hospital de Veneza onde nascera, instalado no palcio bizantino-renascentista da Scuola Grande di San Marco. Outro aspecto indito: muitos dos captulos so entremeados com ilustraes de pinturas venezianas, imagens de famlia, cenas de filmes e at a de um videogame. Elas remetem ao relato imediatamente anterior e ajudam a montar o quebra-cabea construdo por Diogo para dar um sentido a tudo o que ocorreu aps o nascimento de Tito. Em algumas pinturas, ele prprio assume o papel de personagem, assim como o faz com relao a Anna e Tito, por meio de setas que apontam detalhes que os retratariam.
     Em torno da paralisia cerebral de seu filho, orbitam duas narrativas que se imbricam uma na outra: a do drama familiar e a da histria das ideias e de seu corolrio, a arte que se quer expresso da Verdade  com v maisculo , seja filosfica, religiosa ou ideolgica. Est-se falando da arte de Bizncio, do Renascimento e do Barroco, de que Veneza  uma das joias mais ofuscantes, por obra de mestres da arquitetura, da pintura e da escultura que a moldaram alinhados com sua geografia peculiar. No sculo XVIII, escreveu o comedigrafo Carlo Goldoni, um dos venezianos mais ilustres: Veneza  uma cidade to extraordinria que no  possvel ter dela uma ideia exata sem a ver: os mapas, as plantas, as maquetes, as descries no bastam;  preciso v-la. Todas as cidades do mundo mais ou menos se assemelham: essa no tem semelhana com nenhuma. Toda vez que eu a revi depois de longas ausncias, surgiu em mim um novo espanto. A medida que eu crescia, que aumentavam meus conhecimentos, e tinha comparaes a fazer, descobria nela novas singularidades, novas belezas.
     Diogo s poderia escrever esse livro em Veneza, ainda que Jos Dirceu no emporcalhasse Tintoretto. Foi nessa cidade sem paralelo, que coroa a vaidade do pensamento e da arte, que Diogo se refugiou para escrever seus quatro romances. Foi nessa cidade diferente de todas as outras que ele conheceu a sua queda particular  e, nela, reconheceu as nossas aspiraes evanescentes que insistem em sobreviver em quaisquer latitudes. No livro, Veneza continua a ser extraordinria, como na poca de Goldoni, mas no como um tributo ao engenho humano, e sim  sua prepotncia, da qual Diogo se despiu existencialmente. Diz ele a VEJA: O nascimento de Tito me fez deixar os romances de lado, porque mudou o narrador. Em meus romances, eu era o narrador onisciente, que comandava o destino de um bando de personagens idiotas. Depois de Tito, eu me tornei o personagem idiota, e meu destino passou a ser narrado por um menininho de pernas tortas que nem sabia falar. Morreu a minha soberba autoral e, sem ela, era impensvel continuar a escrever romances. Dito de outra maneira: eu sempre imaginei que saberia manter um razovel controle sobre os fatos de minha vida. Tito me mostrou, porm, que eu nunca controlei porcaria nenhuma, e que a nica possibilidade de livre-arbtrio ao meu alcance estava na leitura dos fatos, e no nos fatos em si.
     Nesse exerccio de livre-arbtrio, Diogo inicia o livro estabelecendo uma conexo entre a paralisia cerebral de seu primognito e o que chama de estetismo abestalhado. Mesmerizado pela fachada magnfica do hospital de Veneza, arquitetada por Pietro Lombardo em 1489 para a ento Scuola Grande di San Marco, ele deixou de lado os desastres mdicos que fizeram a fama daquela instituio e disse a Anna, receosa do parto, diante do hospital: Com esta fachada, aceito at um filho deforme. A frase no deve ser interpretada literalmente, mas como achincalhe intelectual, de acordo com Diogo. O arquiteto Pietro Lombardo, louvado pelos seus pares e pelos maiores crticos de arte, encarna de tal forma o ideal de beleza artstica que o poeta Ezra Pound o colocou em sua obra magna, Os Cantos, como traduo do Bem em contraposio ao Mal, simbolizado pela usura. Pietro Lombardo no se fez com a usura, escreveu Pound. Dessa forma, escreve Diogo, eu s conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto.
     Mais adiante, Diogo conta que nasceu em 22 de setembro de 1962, data em que o arquiteto modernista franco-suo Le Corbusier foi convidado a projetar uma nova sede para o hospital de Veneza. Teria sido erguido um prdio medonho, com blocos de cimento armado, no houvesse Le Corbusier morrido seis meses depois de apresentar o projeto, afogado no Mediterrneo. Ou seja, o Mal, personificado pela arquitetura do franco-suo, teria gerado o Bem, visto que Diogo no escolheria o novo hospital de Veneza para ter seu filho e, certamente, Tito nasceria em perfeitas condies na vizinha Pdua, dotada de um dos melhores hospitais da Europa. O Mal do qual nasce o Bem  o exato oposto do que proclamam Ezra Pound e todos os tericos, filsofos e artistas que construram Veneza, o Orgulho da Cincia, o Orgulho do Estado, o Orgulho do Sistema. Enfim, o Orgulho da Razo.
     Por meio desse tipo de operao literria, em que coincidncias pessoais e histricas se encaixam umas nas outras de maneira to admirvel quanto arbitrria, por sempre se tratar de uma interpretao dos fatos, lembre-se, Diogo monta seu quebra-cabea cujas peas unem a Veneza de Pietro Lombardo  de Canaletto, os filmes de Abbott e Costello aos programas de extermnio de Hitler, a Divina Comdia, de Dante Alighieri, a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Completado o quebra-cabea, ele nos mostra a figura de um crculo que abriga no um ser humano de propores perfeitas, mas o pequeno Tito, o inverso do Homem Vitruviano. Com sua paralisia cerebral que o obriga a pensar em cada gesto a ser feito, a antecipar cada palavra que consegue pronunciar, ele, sim,  o orgulho da razo. Mas da razo possvel dentro de uma realidade csmica que simplesmente nos ignora. Da nossa razo imperfeita que no raro tem diante de si um menino verde. D-se a palavra a Diogo:
     Tito nasceu verde.
     Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acompanhara seu nascimento. Ele dissera que Tito permanecera sem ar por tempo demais. Ele dissera tambm que Tito morreria.
     Voltando  maternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um menino recm-nascido em uma incubadora. O menino recm-nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ningum o atendia. Onde est o mdico? Onde est o enfermeiro? Onde est o pai?
     Olhei-o de relance. Olhei-o novamente. Ele estava imvel, com o corpo mole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nome escrito em um esparadrapo colado na tampa da incubadora. Mingardi.
     Mingardi era igual a mim. Eu era igual a Mingardi. O menino recm-nascido na incubadora era meu filho. Mingardi era Mainardi. At nisso o hospital de Veneza errou: em seu nome.
     Olhei Tito pela ltima vez. Seu rosto era igual ao meu  s que o dele era verde.
     No dia 30 de setembro de 2000. Diogo Mainardi caiu com Tito. E comeou a aprender que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar, como ele prprio diz a certa altura.
     A Queda  um livro magnfico em sua humanidade.


3. CINEMA  O QUE VALE  A INTENO
Com O Vingador do Futuro (Total Recall, Estados Unidos, 2012), refilmagem um tanto quanto suprflua do sucesso de fico cientfica estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, desde sexta-feira em cartaz no pas, o irlands Colin Farrell quebra um jejum de seis anos em filmes de ao (prazo razovel quando se considera que sua ltima incurso no gnero fora o horrendo Miami Vice). De l para c ele foi pai pela segunda vez, ganhou um Globo de Ouro e deu por encerrada a vida de baladeiro que em certo momento ameaou engolir o ator de prestgio. Apontado como a grande promessa de sua gerao no incio da dcada passada, quando protagonizou o drama de guerra Tigerland, Farreil passou por muitos baixos. Mas, desde que trabalhou sob a direo de Woody Allen em O Sonho de Cassandra (em 2007) e fez a comdia de humor negro Na Mira do Chefe (em 2008), quase s tem o que comemorar. No Rio de Janeiro para divulgar o novo filme, o ator de 36 anos falou ao editor Mario Mendes sobre sucesso, excessos, fracassos e a idade da razo.

O senhor gosta do Vingador do Futuro original? 
Eu o vi aos 15 anos e gosto da aventura e do humor, que est l at nas cenas de violncia. Mas uma das preocupaes do diretor Len Wiseman no novo filme foi justamente evitar esse casamento de humor com violncia. No para ser politicamente correto, mas devido  onda de terrorismo e insegurana que se espalhou pelo mundo nesta dcada, e que estava longe de ser uma preocupao nos anos 90.

Qual a diferena entre a sua interpretao e a de Arnold Schwarzenegger? 
No h muita diferena porque no  um personagem que exija grande sensibilidade de um ator. Exigiu, isso sim, preparo fsico. Durante seis meses, diariamente eu corri, pulei, ca, lutei, atirei e gritei.

Entre Alexandre (2004) e Na Mira do Chefe (2008) o senhor viveu um perodo de turbulncia profissional, certo? 
Com Alexandre, de Oliver Stone, eu recebi as piores crticas da minha carreira. Mas o que vale  a inteno, e sempre digo que gosto das intenes daquele filme, apesar de ele nunca realmente atingir os seus propsitos. Costumo encarar Alexandre como um glorioso fracasso, comercial e artstico, que me fez comear a questionar a qualidade do meu trabalho e a minha exposio pblica, que era imensa. Essa decepo profissional,  qual depois se juntou o fracasso de Miami Vice, me fez parar, refletir e me colocar novamente no eixo.

A sua fama ento era de bad boy: bebedeiras homricas, drogas e muitas namoradas. Como foi esse perodo? 
Ooops... Outro dia, Oliver Stone foi entrevistado na televiso e perguntaram se ele conhecia algum capaz de beber mais do que Charlie Sheen. Ele disse: Colin Farrell pode beber mais do que qualquer um.

O senhor bebeu mais do que Charlie Sheen? 
No, no, claro que no. A verdade  que naquela poca eu simplesmente estava fazendo as mesmas coisas que as pessoas da minha idade faziam. A diferena  que eu era uma pessoa pblica e ganhava muito mais dinheiro. Mas esse tipo de vida cansa e eu logo enjoei de tudo aquilo, queria sossegar. Afinal, eu j tinha um filho (James, nascido em 2003). Decidi que deveria me concentrar em ser um bom pai  e um bom ator.

O senhor diria que atingiu um outro patamar a partir de Na Mira do Chefe?
Para ser bem sincero, no vejo minha carreira de maneira to objetiva. Ento, eu pergunto: qual a medida do sucesso?

O senhor recebeu o Globo de Ouro por Na Mira do Chefe. Isso  um indicativo de sucesso na sua profisso. 
Sim, ganhei o prmio e foi um prazer. Mas garanto que no foi o momento mais importante da minha vida. Eu jamais recusaria um Oscar, mas no  uma meta. J imaginou que frustrao seria todo ano esperar por uma indicao, no consegui-la e ficar pensando, ser que vai ser no ano que vem?. A satisfao tem de existir  enquanto se faz o trabalho.

Como o senhor escolhe um roteiro? 
Sempre quero algo diferente do que fiz anteriormente. Se acabo um filme sombrio, procuro algo divertido. E sei que um papel me pegou de verdade quando comeo um roteiro e, l pela pgina 5, j estou lendo em voz alta. Porque um ator nada mais  que um bom contador de histrias.


4. CINEMA  FOGO DE OUTONO
Com humor, algum charme e muitos clichs, Meryl Streep e Tommy Lee Jones vivem as dores de um amor de meia-idade.

     Alguma coisa vai mal, muito mal, quando o presente mais excitante que um casal consegue compartilhar, no aniversrio de 31 anos de casamento,  a renovao da assinatura da TV a cabo. Agora temos muito mais opes, justifica a mulher. Kay (Meryl Streep), para a famlia, no jantar comemorativo cheio de sorrisos amarelos e silncios incmodos. Arnold, o marido (Tommy Lee Jones), aproveita o novo pacote sintonizando apenas o canal de golfe  e dormindo sonoramente na poltrona. Sexo, nem pensar: numa inverso dos clssicos papis,  ele quem diz estar indisposto. Apesar desse relacionamento rido entre os protagonistas, Um Div para Dois (terrvel ttulo nacional para Hope Springs, Estados Unidos, 2012), desde sexta-feira em cartaz,  uma comdia romntica repleta de boas intenes.
     Juntos pela primeira vez, Meryl e Jones no s revelam excelente qumica e perfeito timing cmico como tambm um despojamento raro, para estrelas de seu porte, em exibir sem pudores e nada de Botox os traos devastadores da passagem do tempo. Quando Kay decide investir as economias em uma semana de terapia intensiva para casais com um especialista (Steve Carell)  na cidadezinha de Hope Springs, no estado do Maine ,  a deixa para as desajeitadas tentativas da dupla de reacender a paixo original com um exuberante fogo de outono.  quando se percebe tambm a presena do diretor David Frankel  o mesmo de O Diabo Veste Prada , que se mostra muito mais  vontade nas sequncias movimentadas e de humor do que nos momentos que pedem introspeco, quando ele recorre ao expediente de preencher o espao com uma trilha sonora de rdio FM.
     Esse no  o nico clich de Um Div para Dois. Os conselhos do terapeuta so de livro de autoajuda, e, claro, h a inevitvel piada envolvendo uma banana  que Meryl tira de letra apenas com um olhar maroto. Mas seu trunfo , numa paisagem dominada por filmes de ao vertiginosa e protagonizados por seres sobrenaturais ou gente muito jovem, conseguir falar dos problemas das pessoas de meia-idade com leveza e um certo charme.
MARIO MENDES


5. VEJA RECOMENDA
DISCOS
WHAT WE SAW FROM THE CHEAP SEATS, REGINA SPEKTOR (WARNER)
 A cantora russa Regina Spektor destoa do clube das mooilas chorosas, do tipo Alanis Morissette, que se comprazem em cantar baladas sobre relacionamentos falidos. Primeiro, porque  uma tima intrprete, pianista e compositora. Segundo, e mais importante, Regina tem um tremendo senso de humor. Que se manifesta, por exemplo, em Oh Marcello, cano na qual ela adota um sotaque italiano cafona e cita Dont Let Me Be Misunderstood, hit do grupo ingls The Animais. Ou em The Party, na qual imita com a boca uma seo de metais. Ou ainda em Dont Leave Me (Ne Me Quitte Pas), que se vale do ttulo do clssico do belga Jacques Brel para falar de um romance em Nova York (onde Regina est radicada) que no deu certo  mas sem chorumelas. O disco no se resume a canes engraadas. H momentos belssimos que lembram o melhor soft rock americano dos anos 70  na balada Firewood, ela parece encarnar o pianista e compositor Randy Newman. Ballad of a Politician pode ser um recado ao conturbado pas natal da cantora: a melodia faz referncia  msica russa e a letra fala de maquinaes polticas.

MOZART: PIANO CONCERTOS 20 & 21, JAN LISIECKI, SYMPHONIEORCHESTER DES BAYERISCHEN RUNDFUNKS E CHRISTIAN ZACHARIAS (DEUTSCHE GRAMMOPHON)
 O pianista canadense Jan Lisiecki tinha somente 15 anos quando assinou contrato com a poderosa gravadora alem Deutsche Grammophon. Alm de impressionar jurados de concursos eruditos mundo afora, ele havia consolidado sua reputao ao ser escolhido para substituir o veterano brasileiro Nelson Freire  que tivera um problema na mo  em quatro rcitas na Frana. O talento de Lisiecki, hoje com 17 anos, se revela de forma ntida neste seu disco de estreia na gravadora, que traz dois dos concertos mais populares de Wolfgang Amadeus Mozart. O pianista impressiona pela impetuosidade: em geral, seus companheiros de teclado demoram anos para gravar essas obras, por causa do alto grau de virtuosismo exigido. Regido pelo alemo Christian Zacharias, que tambm  pianista, Lisiecki demonstra talento e graa. Nunca peca pelo exagero, embora muitas passagens sejam convites traioeiros ao exibicionismo. O jovem pianista teve ainda a ousadia de criar sua prpria cadenza (passagem na qual o solista tem oportunidade para mostrar seu virtuosismo) para o Concerto N 21. Uma estreia promissora de um prodgio do piano.

LIVROS
O DIABO NA GUA BENTA. DE ROBERT DARNTON (TRADUO DE CARLOS AFONSO MALFERRARI; COMPANHIA DAS LETRAS; 632 PGINAS; 74,50 REAIS)
 Diretor da biblioteca da Universidade Harvard, o historiador americano Robert Darnton  um especialista na Frana do sculo XVIII e na histria do livro. Em estudos como Os Best-Sellers Proibidos da Frana Pr-Revolucionria, ele demonstrou que a literatura barata de panfletistas e porngrafos teve seu papel na eroso da monarquia francesa, desvelando assim um universo negligenciado pela historiografia que se detinha somente em clssicos iluministas como Diderot e Voltaire. Este livro prossegue na mesma linha, analisando como anuncia o subttulo  a arte da calnia e da difamao de Lus XIV a Napoleo. Darnton reconstitui o efervescente mundo social dos hack wrirers  autores de libelos proibidos que, escrevendo do exlio, atacavam os figures da sociedade francesa.

PORVENTURA, DE ANTONIO CICERO (RECORD; 80 PGINAS; 24,90 REAIS)
 Em Amaznia, o poeta comea recusando-se a cantar o Rio Amazonas, mas desta recusa se seguem consideraes sobre origens genealgicas (meus traos caboclos traem os maranhes), sobre o explorador espanhol Orellana, sobre mitos gregos. Tudo isso para concluir com a orgulhosa afirmao individualista: Feito o Amazonas, surjo do deserto / mas dos afluentes eu escolho as guas. Amaznia resume bem as qualidades desta terceira coletnea de poemas do carioca Antonio Cicero, tambm poeta e letrista: a capacidade de encadear as mais dspares referncias literrias, histricas e pessoais, em versos fluidos, lmpidos. Cicero tem um humor fino, que no se trivializa nem quando retrata o trivial, como em Meio-Fio, sobre um acidente de carro a caminho do cinema. Sobressai, do conjunto, uma melanclica mas serena considerao da precariedade do mundo  e da poesia.

DVD
DIVORCIO  ITALIANA (DIVORZIO ALLITALIANA, ITLIA, 1961. VERSTIL)
 Um dos expoentes do neorrealismo italiano, o diretor Pietro Germi foi,  medida que sua carreira avanava, afastando-se das questes sociais e polticas para concentrar-se nos costumes  em particular os costumes peculiares e muito machistas da velha Siclia. O que significa, claro, que Germi foi rumando tambm para a comdia. E, nesse gnero, sua obra-prima  Divrcio  Italiana. De bigodinho, brilhantina no cabelo e fisionomia entre o entediado e o melanclico, Marcello Mastroianni  o empobrecido baro Fefe Cefal, casado com a tambm algo bigoduda e muito fogosa Rosalia (a tima Daniela Rocca). O objeto de desejo de Fefe, porm,  outro: a jovem, delicada e assustadia Angela (Stefania Sandrelli). Como a lei no permite o divrcio, o baro falido arranja outra soluo para seu dilema  pe um amante em potencial no caminho de Rosalia e fica aguardando a traio para poder cometer seu assassinato de honra. Stefania, uma das musas italianas dos anos 60, reaparece ainda no quase to bom Seduzida e Abandonada, tambm de Germi, que a mesma distribuidora lana simultaneamente.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
3. Herana  Christopher Paolini. ROCCO 
4. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
5. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
6. O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
7. Manuscrito Encontrado em Accra  Paulo Coelho. SEXTANTE
8. Assassins Creed  A Cruzada Secreta  Oliver Bowden. GALERA RECORD
9. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10.  O Colecionador de Lgrimas  Augusto Cury.  PLANETA

NO FICO
1. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS
2. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
3. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL
4. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
5. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL 
6. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
7. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA
8. Getlio 1882-1930  Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS
9. Steve Jobs  Walter Isaacson. COMPANHIA DAS LETRAS
10. Rpido e Devagar  Daniel Kahneman. OBJETIVA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
2. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD
3. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA
4. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
5. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
6. O X da Questo  Eike Batista. PRIMEIRA PESSOA
7. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
8. Transformando Suor em Ouro  Bernardinho. SEXTANTE 
9. Orfandades  O Destino das Ausncias  Pe. Fbio de Melo. PLANETA 
10. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE 


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  CHACINA OLMPICA
     No festival de bizarrices em que consiste uma Olimpada, a bizarrice maior estava reservada para o ltimo dia  a prova do pentatlo moderno. Os brasileiros tiveram sua ateno despertada para essa modalidade por causa da medalha de bronze obtida por Yane Marques, uma graciosa sargenta (sim, sargenta) natural da cidade pernambucana que porta o belo e trgico nome de Afogados da Ingazeira. Parabns, Yane. E obrigado, Yane. Ao nos revelar o pentatlo moderno, ela nos ajudou a entender a natureza profunda do festival quadrienal a que se d o nome de Olimpada.
     O pentatlo moderno consiste numa sequncia de provas de esgrima, natao, equitao, tiro e corrida. Nada mais sem p nem cabea,  primeira vista. E nada mais difcil de o pblico acompanhar e torcer, tanto pela necessidade de enfronhar-se nas regras de diferentes esportes, na maioria obscuros ao entendimento comum, quanto de manter os olhos nos diferentes palcos em que se travam as disputas. O pentatlo moderno  estapafrdio como seria, para uma pessoa, exibir simultaneamente as habilidades de danarino e de orador, de torneiro mecnico, de observador de pssaros e de economista. Mas comea a soar lgico quando se conhecem sua origem e seus propsitos.
     A prova foi inventada pelo prprio baro de Coubertin, o fundador dos modernos Jogos Olmpicos. Segundo se aprende nas enciclopdias,  a nica inventada expressamente para figurar nos Jogos. A primeira disputa ocorreu em 1912, na Olimpada de Estocolmo, e em quinto lugar ficou um jovem soldado americano de nome George Patton, mais tarde consagrado como um dos generais que conduziram  vitria de seu pas na II Guerra Mundial. Da sargenta Yane ao general Patton  o leitor captou a conexo? Se ainda no, vamos em frente. Na Grcia antiga, o pentatlo era composto de provas de corrida, luta, salto, lanamento de dardo e lanamento de disco. O propsito da srie salta mais  vista do que na verso moderna: so habilidades que conformavam o soldado ideal. Alm das habilidades bsicas de correr e saltar, o atleta/soldado era testado no manejo de armas, como eram na poca o dardo e outros objetos passveis de ser atirados contra o inimigo, e na luta corporal.
     Com o pentatlo moderno, Coubertin quis atualizar o teste do bom soldado. Hoje tal atualizao soa ultrapassada; o soldado que Coubertin tinha em mente era o do sculo XIX. Mas permanece o carter militar do esporte  da Patton, da nossa Yane, treinada por um major do Exrcito, e ela prpria feita sargenta. E da tambm a base a partir da qual nos  permitido ir alm, na decifrao da natureza profunda das Olimpadas. O pentatlo, junto com a maratona, que celebra a proeza do soldado grego Feidpedes, escancara, no ltimo dia da competio, o segredo to bem encoberto nos dias precedentes pela cantilena de paz, concrdia e esprito olmpico: Olimpadas so guerras. E guerras pavorosas, de todos contra todos, como no pesadelo de Hobbes. Centenas de pases se digladiando, cada um por si contra centenas de outros.
     Sendo guerra, a Olimpada de Londres s podia terminar, nos tempos que correm, como terminou: com a vitria massacrante das potncias nucleares. As quatro principais  EUA, China, Gr-Bretanha e Rssia  ocuparam os quatro primeiros lugares, nessa ordem. Juntas, somaram 137 medalhas de ouro. Se a esse total se adicionam as onze obtidas pela Frana, o quinto membro do original e imbatvel clube nuclear, classificada em stimo lugar, temos 148 medalhas de ouro  s trs a menos do que a metade das 302 em jogo.  uma devastao. No day after, o que temos  paisagem lunar, poeira atmica na atmosfera, cadveres empilhados, mortos-vivos a perambular entre runas.
     O Brasil foi tratado como um dos mortos-vivos. Os comentaristas lamentaram o que, tudo considerado, teria sido um resultado acachapante. Bem pesadas as coisas, no entanto, tem-se que o 22 lugar obtido pelo pas  bem melhor do que outros indicadores de sua posio no mundo  o 84 lugar (entre 187) no IDH, ou o 57 lugar (entre 65) no Pisa, o ndice internacional de avaliao de estudantes. Na guerra de Londres, o Brasil at conseguiu refugiar-se num canto do qual lhe foi possvel disparar alguns tirinhos, enquanto se esquivava do pior do contgio atmico. Um problema do pas, se isso  problema,  que cinco das dezessete medalhas foram obtidas em jogos de bola (vlei e futebol), e bola no  nem nunca foi arma.  brinquedo. S serve para entreter soldado de folga.

